A conversa com a Dra. Anna Carolina Hoff no DrauzioCast trouxe à mesa um tema que impacta milhares de pacientes no Brasil: o reganho de peso após a cirurgia bariátrica.
Com três especialistas reunidos, o debate percorreu desde aspectos metabólicos até a realidade do SUS, mostrando que a obesidade é uma doença crônica, progressiva e multifatorial — e que o cuidado não termina com a cirurgia.
Neste artigo, reunimos os principais pontos discutidos, transformando a conversa em um guia claro e útil para pacientes, familiares e profissionais de saúde.
🩺 1. Afinal, por que alguns pacientes voltam a ganhar peso?
A obesidade é uma condição complexa. Segundo a Dra. Anna Carolina Hoff, muitos pacientes “comem suas emoções” — algo que não desaparece simplesmente após o procedimento.
Lutos, separações, estresse, mudanças de vida… tudo isso pode reativar padrões antigos:
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Beliscar compulsivo
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Busca por alimentos altamente calóricos
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Retorno aos doces
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Uso de álcool como alívio emocional
Isso mostra que o reganho de peso é muito mais do que “falta de disciplina”: é uma resposta comportamental e emocional que exige acompanhamento contínuo.
🧠 2. Por que o acompanhamento multidisciplinar é indispensável?
A cirurgia bariátrica nunca deveria ser encarada como alta definitiva.
Por ser uma doença crônica, a obesidade exige suporte para toda a vida — algo que inclui:
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Nutricionista
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Endocrinologista
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Endoscopista
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Psicólogo
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Psiquiatra
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Educador físico
Cada paciente tem um perfil diferente, e alguns vão precisar mais de psiquiatria, outros mais de nutrição, outros mais de suporte psicológico.
A palavra-chave, como reforça a Dra. Anna, é personalização.
🧬 3. Alterações metabólicas, flora intestinal e adaptação do organismo
O corpo humano trabalha para voltar ao peso anterior — e isso está na literatura. Um trabalho clássico citado no podcast mostra que:
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Para cada quilo perdido, o corpo aumenta a fome em 100 calorias
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E reduz a taxa metabólica basal em 30 calorias
Ou seja: o organismo resiste ao emagrecimento.
Além disso, há evidências de que a microbiota intestinal muda, se adapta e altera a eficiência metabólica depois da cirurgia.
Quando um paciente chega anos após operar, vindo de outra cidade ou equipe, é essencial:
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Reavaliar toda a situação clínica
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Investigar alterações metabólicas
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Ajustar nutrição e comportamento
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Só então indicar uma intervenção revisional, se necessária
🏥 4. E o SUS? Consegue acompanhar esses pacientes?
A resposta é: depende da região do país.
Como explica a Dra. Anna, o SUS é uma entidade nacional, mas funciona de forma muito diferente em cada canto do Brasil. Enquanto alguns serviços oferecem acompanhamento exemplar, outros deixam o paciente literalmente “de alta” após a bariátrica — algo que é incompatível com a natureza crônica da obesidade.
A falta de acompanhamento leva:
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A deficiências vitamínicas
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A perda de massa magra
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Ao retorno de hábitos alimentares inadequados
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E ao reganho de peso
🍽️ 5. E quanto às vitaminas? Nem todos os pacientes precisam para a vida toda
No caso da cirurgia Sleeve, por exemplo, não há desvio do trato digestivo.
Assim, um paciente bem acompanhado nutricionalmente pode não precisar de multivitamínicos para sempre.
A chave está em duas palavras:
👉 Acompanhamento contínuo
👉 Orientação nutricional de qualidade
🔄 6. O papel da endoscopia na recidiva de peso
Quando um paciente que já operou volta a ganhar peso, a endoscopia entra como uma ferramenta poderosa.
Mas há um ponto que a Dra. Anna reforça:
“Foi infinito enquanto durou. Em algum momento funcionou, e agora talvez precisemos intervir de novo.”
A medicina moderna hoje permite:
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Redução endoscópica do estômago
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Fechamento de anastomoses dilatadas
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Revisões pós-bariátricas minimamente invasivas
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Avaliação detalhada da anatomia pós-cirurgia
Essas técnicas não apenas reduzem o volume estomacal, mas também ajudam a recuperar parte da regulação hormonal perdida no processo natural de recuperação do estômago.
🏋️ 7. A verdade sobre mudanças de estilo de vida isoladas
Segundo dados discutidos no programa, em 100 pacientes que precisam emagrecer apenas com dieta e atividade física:
📉 Perda média de peso em 1 ano: 3% a 4%
Isso mostra que:
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Mudança de estilo de vida é fundamental
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Mas não é suficiente para a maioria dos pacientes com obesidade
Daí a necessidade de considerar terapias combinadas.
🧵 8. O que os procedimentos endoscópicos realmente entregam?
A IFSO (Sociedade Internacional de Cirurgia Metabólica e Bariátrica) já reconhece:
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Procedimentos endoscópicos para obesidade classe I
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Para classe II
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E até classe III, dependendo do caso e da preferência do paciente
Mas é fundamental ser ético e transparente:
📌 Média de perda de peso
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Gastroplastia endoscópica: 18% a 22%
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Revisional endoscópica: cerca de 18%
Trata-se de tecnologia segura, consolidada e estudada há mais de 10 anos, mas que não deve ser vendida como bariátrica cirúrgica.
💉 9. Medicações associadas: potencializando resultados
Com os modernos análogos de GLP-1 (as “canetinhas”), é possível elevar a perda de peso para:
📊 24% a 25% do peso corporal
O ponto central é explicar ao paciente:
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O procedimento entrega uma parte
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A medicação entrega outra
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O conjunto pode trazer o melhor resultado
🎯 10. As quatro possibilidades apresentadas ao paciente
No consultório, a Dra. Anna expõe quatro caminhos principais:
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Mudança de estilo de vida isolada
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Medicação isolada
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Procedimento endoscópico isolado
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Endoscopia + medicamentos ➡️ opção mais eficaz
O paciente participa, entende, escolhe e assume seu tratamento — algo essencial para a adesão a longo prazo.


